Como tornar os invisíveis, visíveis

Como professor de biologia, a invisibilidade esteve presente quando procurava bactérias no microscópio ou encontrava apenas a pegada de uma onça durante uma visita na mata. Mas ampliei esse entendimento quando fui escolhido por um grupo de alunos do Ensino Médio para orientá-los num projeto de fotografia no Programa de Iniciação Científica do colégio. Naquele momento tanto eu quanto eles tínhamos o mesmo conhecimento sobre fotografia: próximo a zero. Nosso acordo foi simples: íamos aprender juntos como transformar a vontade de fotografar em algo concreto, com propósito. Seríamos todos aprendizes nesse processo e tínhamos um ano para absorver o máximo sobre o assunto. E foi o que fizemos: lemos, estudamos, viajamos, discutimos, pensamos em desistir, erramos..e, é claro, fotografamos muito.

Um dos grandes desafios era encontrar o propósito e a história que gostaríamos de contar. A solução foi criar desafios fotográficos semanais. Durante várias semanas aprendemos técnicas, composições e principalmente a nos enxergar como um grupo. A ideia do que queríamos contar através da fotografia ficava cada vez mais clara.

O interesse por fotografar pessoas foi aumentando gradualmente.

No final do ano o grupo estava preparado para definir o objetivo do projeto, e depois de muitas conversas sobre Humanidade e Sociedade, começamos a pensar como nossa fotografia poderia dar voz para pessoas que dificilmente seriam ouvidas.

Onde estariam essas pessoas? Que histórias elas teriam para contar? Quem seriam elas, afinal?

E durante uma das saídas de campo, depois de conversar com o sr. Dorico (um senhor muito simples, com um comércio numa estrada de difícil acesso no litoral de São Paulo), surge então a pergunta fundamental:

Como tornar os invisíveis, visíveis?

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E assim nasceu o projeto Invisíveis. Tínhamos encontrado nosso propósito.

No ano seguinte iniciamos a jornada com a missão de encontrar e entender as diferentes formas de ser invisível em nossa sociedade. Queríamos ultrapassar as barreiras do estereótipo de invisibilidade social (moradores de rua, coletores de lixo). Ficou claro como estávamos programados para não enxergar pessoas que são diferentes de nós, seja cultural, estética, social ou economicamente.

Decidimos a ir além de nossa zona de conforto, percorrendo cerca de 1600 km, sete cidades e conhecendo a história de mais de 50 pessoas. Dentre nossos acordos, o mais importante era que não deveríamos fotografar pessoas sem que elas percebessem (o que chamamos de retrato “roubado”). Tudo começava com um encontro, depois uma conversa para conhecer parte da história (confesso que essa parte foi muito difícil para todos, pois não estávamos acostumados a se conectar dessa forma com “estranhos”). Só depois o convite para a foto era feito.

E foi assim que conhecemos pessoas incríveis como o sr. Antonio Herrera (que trabalhou durante muitos anos num hospital psiquiátrico em São Paulo, onde ajudou muitos invisíveis. Hoje passa os finais de semana no bairro da Liberdade, conversando com os visitantes, lutando também contra sua própria invisibilidade). Estevan (artista de rua, que se transforma em bardo para mostrar às pessoas a beleza das palavras e a magia do movimento. Por trás da máscara e fantasia, surge um ser humano gentil e extremamente inteligente). E D. Marilda, uma senhora muito simpática que encontramos na Avenida Paulista, onde passa as tardes conversando com os artesãos locais).

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E muitos outros. Assim, com a história e imagem, essas pessoas deixaram de ser invisíveis e desconhecidas para nós. Nos conectamos a elas. Essa transformação provocou uma mudança de percepção. Começamos a ver que elas existem.

Estávamos efetivamente tornando-as visíveis.

Parte dessas histórias se transformaram num livro e desde o início deste ano tivemos a oportunidade de apresentar essas pessoas em nove capitais do Brasil, inspirando pessoas a desenvolverem seus olhares.

A partir entendemos que podíamos ampliar nossas atividades e assim decidimos criar uma forma de ajudar outros jovens como descobrir a história que gostariam de contar: uma Academia de Fotografia, onde os mentores dos novos protagonistas são os alunos que fizeram essa jornada comigo.

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Muitos desses jovens, invisíveis em diversos momentos e contextos, agora enxergam uma oportunidade para se expressar. Dessa iniciativa projetos relacionados ao empoderamento feminino, bullying, exclusão social e estereótipos — ampliações do conceito de invisibilidade social — já estão em fase de execução!

Mas o que essa jornada nos ensinou?

Começamos a nos enxergar com mais cuidado, entendendo que existiam habilidades em cada um de nós até então desconhecidas ou adormecidas, como por exemplo resolução de problemas, empatia, paciência, oratória, criatividade. A fotografia foi a ponte que construímos para enxergar as pessoas. Antes dela não sabíamos o quanto ignorávamos aquelas que não estavam dentro dos nossos conceitos. Percebemos também o quanto a invisibilidade social já está estabelecida em nossa sociedade.

Entendemos que os invisíveis estavam mais perto do que percebíamos, como é o caso desta foto — minha vó — que há anos luta contra o Alzheimer, uma luta injusta entre a clareza da lembrança e a escuridão do esquecimento.

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Nosso conceito sobre invisibilidade foi ampliado, mas tivemos que ir muito longe para perceber o que estava escondido tão próximo. Ficou claro que o tema e a caminhada diziam muito sobre nós.

Posso garantir que essa jornada foi uma das maiores experiências da minha vida. Esses alunos e todas as pessoas envolvidas me transformaram. Aprendi mais do que ensinei. Com eles aprendi o real sentido da palavra Educar.

Educar é construir pontes, junto com aqueles que querem atravessá-la. Ser professor é também um ato de tornar invisíveis, visíveis.


Esse texto foi cuidadosamente construído com Letícia Mello e Renato Maciel e publicado originalmente no Medium e Exposure para minha apresentação no TEDxSãoPaulo Pluralidades, que aconteceu em novembro de 2016. Ele está disponível abaixo:

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Um comentário em “Como tornar os invisíveis, visíveis

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